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Conto #2 – Raiva (parte 1 de 5)

“Ao inferno com todos vocês!” a frase já ecoara, repetidas vezes, nos corredores da Grande Enfermaria. “Já disse que ninguém aqui vai tocar em um fio de cabelo da minha perna!”. Dessa vez, o refrão veio seguido pelo som de algumas peças de metal caindo ao chão e vidro se quebrando.

O som alto vinha de uma bandeja com instrumentos cirúrgicos e alguns frascos de misturas medicinais arremessados em um dos lados da sala onde se encontravam duas enfermeiras assustadas e um curandeiro vestindo um jaleco marcado com algumas antigas manchas de sangue. Do outro lado da enfermaria, um homem sentado ao chão, com um dos braços amarrados em uma corda presa à cama enquanto o outro segurava uma grande adaga de batalha apontada em direção aos olhos do médico, o que quase dobrava o tamanho de seu braço.

“Olhe aqui,” retrucou o homem de jaleco sujo com os braços semi-erguidos, em posição apaziguadora “se não fizermos isso, o resto de sua perna vai gangrenar e você morrerá uma morte lenta e dolorosa em pouco mais de dois dias.”

O homem armado olhou de relance sua perna esquerda que jazia inerte com uma dobra muito pouco comum em um ângulo ainda mais incomum a uns quatro dedos abaixo do joelho. Aquilo estava doendo, mas o ódio que ele sentia era ainda maior.

“Já avisei que quem chegar perto de mim perde um braço, ou os dois!” bradou ele com sangue nos olhos. “ninguém vai arrancar minha perna fora, não antes de eu ter arrancado a carcaça de aço nojenta do coro do monstro que fez isso comigo!” “Onde eu estou e onde estão os outros cinco?”

As duas enfermeiras se entreolharam: aquela ia ser uma tarde longa.

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Alguns dias antes

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 “Que a febre coral me encha de espinhos se entrar aí for uma boa idéia”

A entrada da gruta era enorme, ainda assim bastante escura e íngreme, descendo em direção a um negro infinito. Próxima a ela, seis aventureiros desmontavam de seus cavalos e juntavam os seus pertences para descer. Um deles, o primeiro a chegar, já estava apoiado a uma pequena rocha olhando para dentro, com uma das mãos segurando uma adaga de batalha fincada no chão como um segundo apoio.

“Um dia, Gui. Um dia essas suas bravatas vão acontecer de verdade, e eu vou estar aqui pra rir de você.” A voz doce veio com um tom de sarcasmo, apagado pelo sorriso branco de uma elfa de olhos amendoados.

“Eu só quero dizer que essa idéia toda é uma tolice. Mais uma tolice heróica de nosso bravo chefito.” replicou Guinever, voltando ao assunto.

“Assim falou o guerreiro com nome de mulher!” A frase veio acompanhada de um baque surdo de um cabo de machado de batalha batendo contra o chão.

“Ah! Cale a boca, Irah.” Retrucou, voltando as costas para a entrada. “Vocês anões mal sabem o que é uma mulher. Fêmeas barbudas são o máximo que vocês conseguem. Isso pra mim tem outro nome: PE-DE-RAS…”

“Basta!” A conversa cessou no mesmo instante. O homem de armadura prateada brilhante falava pela primeira vez em quase dois dias, e aquilo provavelmente deveria ser escutado. “Nos meus sonhos… eu já estive aqui. É para este lugar que deveríamos rumar. Aqui os deuses da justiça devem prevalecer.”

“Ei, paladino. Em seus sonhos você chegou a ver a recompensa?” a figura esguia que descia do cavalo naquele momento continuou falando. “O Gui tem razão neste ponto. Só muito ouro pra me fazer entrar aí hoje.”

“Francamente meu senhor,” interrompeu o outro homem vestido em pesados mantos vermelhos. “eu fico me perguntando como os deuses da justiça o autorizam a andar com uma figura tão gananciosa quanto Magro ao seu lado.” Todos sabiam que o questionamento do mago era justo.

“A ganância dele não é páreo para o bem que ele pode fazer em nome da justiça.” Retrucou o paladino. “isso e eu pago penitencias diárias.” Terminou falando entre os dentes.

“A viagem foi longa.” O silêncio foi interrompido pelo comentário da elfa. “acho melhor descansarmos um pouco e entrarmos mais tarde. Quem sabe amanhã.”

“E perder o elemento surpresa?!” cuspiu o anão. “Você está doida, Allana. Melhor é entrarmos agora.”

“Allana tem razão, Irah.” Respondeu o mago. “Se minhas suspeitas estiverem corretas, quem está aí dentro já sabe que estamos aqui. Não há surpresa ao nosso favor. Descansando pelo menos eu posso escolher melhor minhas magias.”

Todos concordaram mais uma vez. Melhor um mago preventivamente armado que um anão em fúria descontrolada favorecido.

“Descansemos algumas horas” avaliou o paladino. “Isto não alterará nossa vantagem.”

“Eu queria saber onde ele vê vantagem do nosso lado.” Falou Gui, pondo a mão na boca. “Yetis menstruados me mordam se isso tudo ainda não for uma loucura.”

Ao seu lado, uma voz caricaturada e pomposa como a do paladino respondeu de pronto: “Infiel!! Não vê que as forças da justiça estão ao nosso lado. Nada será páreo para nossa investida!” Falava Magro enquanto fazia gestos tão caricaturados quanto.

Lá dentro, bem no fundo da gruta, muito mais fundo que a vista podia alcançar, um respirar pausado e gélido acompanhava cada movimento lá em cima, pressentindo, estudando, aguardando ansiosamente o momento final.

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