Conto #1 (Forgotten Realms)

63 anos da benção do trovão pelo senhor do martelo das almas, Ano da manopla.

42 anos de nosso nascimento.

Sexto dia do mês do martelo.

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Desculpe a caligrafia rabiscada. É difícil escrever alguma coisa quando se está em uma carroça em movimento, cercado por beterrabas, carne salgada e barris de cerveja. Sem contar com a qualidade do terreno no caminho sul da rota do mar da lua: isso aqui só tem piorado nos últimos anos.

Acho que você se lembra bem como corríamos por estes campos quando jovens, eu e você.

Sinto sua falta, sabe. Lembro quando você decidiu partir. A minha escolha te dilacerou, eu sei. Perdão. Mas tradição é tradição, e eu me sinto tão culpado por isto. No tempo de nossos pais tudo era mais fácil: No clã Barba Bifurcada o primeiro rebento de cada família será sempre um Martelo de Moradin. Havia sido assim desde muitos anos em Adbar, na Fronteira Prateada. Tinha sido assim com nosso pai também. Ninguém podia adivinhar que a benção de Moradin atrapalharia séculos de tradição.

Longe de Adbar, aqui no Vale da Névoa, entre dois filhos a escolher – ainda não entendo o porquê – ele escolheu a mim para ensinar.

E eu ainda me sinto tão culpado.

Se eu não tivesse ficado em silêncio, eles não te culpariam pela nossa travêssa investida na fronteira da floresta de Cormanthor. Você não receberia o peso da culpa pela morte daqueles dois humanos, seria certamente quem nosso pai escolheria como representante do clã e talvez estivesse aqui em meu lugar – rumando para Comyr para terminar o treinamento.

Nossa mãe ficou arrasada com sua partida e ainda a encontro chorando pelos cantos. Eles ainda sentem sua falta, talvez mais do que eu.

O frio do início do ano e a neve só aumentam enquanto me afasto da fazenda. Não sei como esses humanos se acostumam tão rápido a este ambiente hostil. Se não os conhecesse há algum tempo, diria que eles são loucos por ainda fazerem a travessia do Estreito de Tilver nos Picos do Trovão em direção à Comyr. Aquele lugar fede a orcs e ogros. Mas como não há outro caminho melhor para seguir naquela direção, melhor que seja nesta época, em que os gigantes aproveitam para hibernar.

Engraçado como o frio também me lembra você. Como você sempre cuidava de mim e me ensinava coisas novas, como nossas primeiras cervejas anãs tomadas na taverna de O Barranco ao som de musicas lendárias aos plenos pulmões, só pra esquentar o peito e aquecer a alma.

Sinos na estrada. Um som familiar. Deixe-me ouvir um pouco. A mensagem é clara mesmo com todo este vento, que ótima surpresa: mais uma anã do escudo deu a luz a gêmeos, como nós. O sorriso no meu rosto não afasta o misto de contentamento e de aperto que percorre meu peito. Moradin há de me dar outra vez o prazer de te encontrar, de te abraçar, de te dizer o quanto eu sinto e que todos nós esperamos o seu retorno.

Suas últimas notícias datam de muito tempo e o dom dado aos gêmeos do trovão parece não funcionar mais. A última vez que te senti foi a três meses. Sei que os barqueiros da Casa Anã ainda não te levaram porquê você sempre foi forte demais para perecer por qualquer peleja, mas pressenti medo e a mesma determinação de sempre. Não sei quem são seus atuais companheiros, mas devem estar te levando para um mar de aventuras – algo pelo quê você sempre sonhou.

Não vou me preocupar. Vou apenas seguir meu destino e, quem sabe, o meu e o seu se cruzem novamente. Enquanto isso vou escrevendo. Quero poder te contar tudo quando te encontrar, do jeito que você fazia quando sumia de casa por dias na infância.

A Comyr, então. Que este mundo traga o que há de melhor, porquê este filho do trovão, sob a benção de Moradin, sairá ileso de tudo que jogarem sobre ele! Assim como nossos pais, assim como todos do clã, assim como todo anão do escudo, exatamente como o Forjador de Almas nos ensinou.

Saudades, minha irmã. Te verei em breve. Viaje sob as bençãos de Moradin e sua esposa. Cuide-se!

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Rurik Barba Bifurcada. Anão do Escudo, servo de Moradin.

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